Na abertura do VI Congresso Luso-Brasileiro de Geotecnica, Arsenio Negro, presidente da ABMS, relembrou momentos marcantes que uniram e unem a geotecnia de Brasil e Portugal. Um dos exemplos de sucessos alcançados por essa parceria constante é o Congresso Luso-Brasileiro, que teve sua VI edição em 16 de abril de 2012. A Revista Geotecnia, veículo de comunicação para a comunidade geotécnica de língua portuguesa, é outra conquista luso-brasileira, assim como a Soils & Rocks. Veja a íntegra do discurso presidente da ABMS.
É uma honra participar deste VI Congresso Luso-Brasileiro de Geotecnia, agora na condição de presidente da ABMS, a Associação Brasileira de Mecânica dos Solos e Engenharia Geotécnica.
É um prazer revisitar este adorável país, cujos destemidos navegadores foram os responsáveis por encontrar, perdido no Atlântico, uma terra fértil e exótica, a que mais tarde deram o nome de Brasil.
É uma satisfação sempre renovada reencontrar tantos amigos, colegas brilhantes, conhecer as novas gerações e compartilhar experiências e conhecimentos.
A hospitalidade portuguesa precisa, uma vez mais, ser reconhecida e aplaudida. Somos gratos à gentileza com que fomos tratados desde que aqui aportamos.
Agradeço, em nome da ABMS e da delegação brasileira, à Comissão Organizadora, na pessoa de seu presidente, prof. Emanuel Maranha das Neves, pela generosa acolhida com que fomos brindados. Agradeço também à Diretoria da SPG, na pessoa de sua presidente, profª Laura Caldeira.
Brasil e Portugal têm uma longa tradição de intercâmbio na área geotécnica, que começou ainda em meados do século passado, pela ação de expoentes portugueses, como Manuel Rocha, Úlpio Nascimento, Francisco Correia de Araújo, Ricardo Oliveira, Emanuel Maranha das Neves e outras personalidades de destaque. Do lado brasileiro, estavam presentes Milton Vargas, Antonio Costa Nunes, Dirceu Velloso, Victor de Mello, Faiçal Massad, Francis Bogossian.
Ao citar esses nomes, meu objetivo, mais do que destacá-los isoladamente – o que seria uma atitude temerária, porque certamente ficariam de fora muitos personagens ilustres – é prestar uma merecida homenagem a todos os geotécnicos portugueses e brasileiros que trabalharam intensamente para aproximar as duas comunidades ao longo de décadas.
Houve momentos marcantes nessa trajetória. Um deles foi a criação da Revista “Geotecnia”, em 1971. Dirigida por José Folque, a revista recebeu a contribuição de geotécnicos brasileiros desde a sua edição número 1. Ao longo das últimas quatro décadas, a revista alcançou o objetivo imaginado por seus fundadores – o de situar-se como um órgão de comunicação para a comunidade geotécnica de língua portuguesa.
Outro marco foi o I Encontro Luso-Brasileiro de Geotecnia, realizado em 1981, no LNEC, Laboratório Nacional de Engenharia Civil, aqui de Portugal. Realizamos, mais tarde, em 2002, o I Congresso Luso-Brasileiro, em São Paulo. A partir de 2008, no IV Congresso, passamos a incluir a “Victor de Mello Lecture”, que aqui será proferida pelo Professor Michele Jamiolkowski, sobre o tema “Role of Geophysical Tests in Geotechnical Site Characterization”.
Merece menção, nesta breve retrospectiva, o sucesso da realização no Brasil do XII Congresso da ISSMGE – o primeiro realizado no Hemisfério Sul, sob a presidência de Francis Bogossian.
E por falar em nossa Sociedade Internacional, cabe destacar a expressiva participação da comunidade luso-brasileira nas atividades da associação. Um brasileiro, Victor de Mello, presidiu a ISSMGE de 1981 a 85. E um português, Pedro Sêco Pinto, a presidiu de 2005 a 2009.
Ainda no capítulo das iniciativas de repercussão internacional, há que se destacar a edição conjunta, Brasil-Portugal, da revista Soils&Rocks, que tem papel relevante como publicação de reconhecida qualidade e circulação mundial.
Brasil e Portugal atravessam momentos históricos bem distintos. Nosso país recuperou a sua trajetória de crescimento. Depois de pelo menos duas décadas de estagnação, período em que os investimentos em obras de infraestrutura caíram a níveis próximos de zero, houve uma inflexão nesta curva.
Investimentos públicos e privados estão hoje distribuídos por todo o país. Obras de expansão da rede metroviária seguem em ritmo acelerado em algumas das principais cidades brasileiras, especialmente São Paulo e Rio de Janeiro. Projetos de novas hidrelétricas na região Norte do País estão em andamento. Obras de renovação da estrutura portuária também seguem em várias regiões.
Soma-se a isso a realização de grandes eventos esportivos de alcance mundial, como a Copa do Mundo de Futebol, em 2014, e os Jogos Olímpicos de 2016, que estão exigindo a construção de obras públicas e privadas em diferentes áreas.
Por conta dessa demanda em crescimento, faltam engenheiros no Brasil, inclusive engenheiros geotécnicos. Faltam geólogos também. Uma única grande empresa estatal brasileira vai absorver metade dos geólogos que vão se formar no Brasil até 2014.
Situação bem diversa vive Portugal. Depois de mais de duas décadas de grande atividade no setor de infraestrutura, e da geotecnia em especial, o mercado interno português entrou em uma fase de contração muito intensa.
O resultado é que bons profissionais perderam ou vão perder o emprego. E as perspectivas de quem deixa as universidades hoje não é nada animadora.
Há, sem dúvida, espaço para a atuação de profissionais e de empresas de Portugal no mercado brasileiro. É importante, no entanto, levar em conta que entre tantas e tão profundas semelhanças, há dessemelhanças entre Portugal e Brasil, entre a cultura dos dois países – fato que pode ser um empecilho para a integração de profissionais portugueses em nosso país.
Precisamos, juntos, conhecer neste momento o que quer o mercado brasileiro, o que querem as empresas brasileiras. Não podemos deixar que nossas afinidades escondam as nossas diferenças. É preciso conhecê-las e superá-las. E este VI Congresso é uma excelente oportunidade para isso
“Navegar é preciso”, expressava o poeta. Pois então vamos, aqui, juntos, fazer deste VI Congresso uma obra de aproximação entre Brasil e Portugal. Conhecendo nossas semelhanças e dessemelhanças, agindo para superá-las, haveremos de honrar o trabalho, em favor dessa união, feito pelos homens e mulheres que nos antecederam.
Encerro minhas breves palavras renovando os meus agradecimentos, em nome da ABMS, da delegação brasileira e em meu nome pessoal, a generosidade de vossa acolhida. Cito os nomes do prof. Emanuel Maranha das Neves, presidente da Comissão Organizadora deste VI Congresso, da profª Laura Caldeira, presidente da SPG, e também aos professores Jaime Santos e Rafaela Cardoso.
Faço votos de que o novo presidente da Sociedade Portuguesa de Geotecnia, engenheiro José Machado Vale, tenha uma excelente gestão à frente da entidade. Nossa expectativa é a de que ele terá importantes contribuições a dar, neste momento, por força de sua proximidade com a prática da engenharia e com o mercado. À profª Laura Caldeira, o nosso reconhecimento público por sua dedicação à frente da SPG e pelas conquistas obtidas.
A todos, o meu muito obrigado e votos de bom trabalho.
Arsenio Negro
Presidente da Associação Brasileira de Mecânica dos Solos e Engenharia Geotécnica