Mulheres na ABMS e na Geotecnia. Presença, pioneirismo e trajetória de realizações - ABMS
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Mulheres na ABMS e na Geotecnia. Presença, pioneirismo e trajetória de realizações

05/03/2026

8 de março — Dia Internacional da Mulher

 

A engenharia geotécnica é uma área que, ao longo de sua história no Brasil, foi construída com o esforço, o talento e a inteligência de muitos profissionais, inclusive, e de forma marcante, de mulheres. Quando se comemora o Dia Internacional da Mulher, a ABMS celebra a presença feminina que, desde os primórdios da especialidade no país, contribuiu e segue contribuindo de forma decisiva para o desenvolvimento da geotecnia brasileira.

Este texto, elaborado com base em pesquisa de Bernardete Danzinger, vice-presidente da ABMS, destaca mulheres que contribuíram para o aprimoramento da geotecnia no Brasil. Mas há muitas outras profissionais que não podem ser esquecidas. Por decisão da Presidência e da Diretoria da ABMS, março será o mês da mulher geotécnica e não apenas o Dia 8 de Março. Entrevistas e reportagens serão publicadas nas próximas semanas, celebrando a participação feminina na ABMS e na engenharia geotécnica.

“As mulheres estão presentes na ABMS e na engenharia geotécnica desde o início. Não como coadjuvantes, mas como protagonistas que abriram caminhos, quebraram barreiras e deixaram contribuições científicas e institucionais que até hoje moldam nossa área. Cada nome que resgatamos é uma história de determinação e excelência que merece ser lembrada e celebrada.”

Bernadete Ragoni Danziger, Vice-Presidente da ABMS

 

“A participação feminina enriquece e fortalece a engenharia geotécnica. Tenho plena confiança no talento, no rigor técnico e na liderança das mulheres que integram a ABMS. Olhar para essa trajetória histórica nos mostra que a diversidade sempre foi, e continuará sendo, um dos pilares do crescimento da nossa associação e da nossa área.”

Roberto Coutinho, Presidente da ABMS

Pioneiras que abriram o caminho

A presença feminina na geotecnia brasileira remonta ao próprio nascimento da especialidade no país. Em 1943, a empresa Estacas Franki selecionou jovens engenheiros indicados pela Escola de Engenharia ENE para bolsas de estudos em Mecânica dos Solos. Entre eles estava a engenheira Maria de Lourdes Campello, formada em 1942, que passou a atuar na Divisão Técnica da empresa na equipe do Prof. Costa Nunes — em uma época em que a especialidade sequer tinha nome consagrado no Brasil. Sua contribuição foi além da prática: ela participou da tradução para o português do clássico Practical Soil Mechanics, de Karl von Terzaghi, obra fundamental para todas as gerações de geotécnicos no Brasil e no mundo.

Participantes da Assembleia Geral no 2º Congresso da ABMS, Rio de Janeiro, 1952. Sentados: Francisco Pacheco Silva, Antônio da Costa Nunes, Milton Vargas, Icarahy da Silveira e Maria de Lourdes Campello.

Ainda naquela geração, em 1952, a engenheira Regina Castro Barbosa — também formada pela ENE em 1942 — integrou o recém-criado Laboratório de Solos do DER (Departamento de Estradas de Rodagem) do Distrito Federal, contribuindo para a estruturação da geotecnia aplicada à infraestrutura viária do país.

No plano internacional, o Brasil fez-se representar por uma mulher já em 1965: Maria José Candiota Porto foi coautora do primeiro artigo publicado por uma geotécnica brasileira em congresso organizado pela ISSMGE (Associação Internacional de Mecânica dos Solos e Engenharia Geotécnica), realizado em Madri.

Essa mesma engenheira viria a ser, em 1970, a primeira mulher a presidir o Núcleo Rio de Janeiro da ABMS e, em 1976, a primeira a obter o título de Livre-Docente em tema de Mecânica dos Solos no Rio de Janeiro — com o tema Geotécnica Aplicada a Barragens.

Na formação do Instituto de Geotécnica do Rio de Janeiro — criado em 1966 em resposta às devastadoras enchentes que afetaram a cidade —, uma das integrantes de destaque foi a engenheira Ana Margarida M. C. C. Fonseca.

Reconhecimento: prêmios e distinções

O talento feminino não tardou a ser reconhecido institucionalmente. A engenheira paulista Evelyna Souto Silveira foi a primeira mulher a receber o Prêmio Terzaghi, o mais importante da ABMS, no biênio 1972/1974.

Alberto Teixeira, Victor de Mello, Maria Luiza de Mello e Evelyna Bloem Silveira.

Desde então, diversas engenheiras acumularam premiações que refletem suas contribuições à ciência e à prática geotécnica:

- Maria Cecília A. B. Guimarães — Prêmio Icarahy da Silveira (1988–1990): primeira mulher agraciada com essa distinção.

-Liamara Paglia Sistrem — Prêmio José Machado (2012–2013): primeira mulher a recebê-lo.

- Ana Paula Mikos — Prêmio Fernando Emmanuel Barata (2014–2015): primeira mulher agraciada.

- Thaissa da Silva O. Morais — Prêmio Costa Nunes (2021–2022): primeira mulher agraciada.

- Fabiana Artuso — Prêmio Jaime de Azevedo Gusmão Filho: primeira mulher a recebê-lo.

No palco da ciência: as palestras de honra

As prestigiadas palestras da ABMS também contam com marcos femininos. Em 2014, Maria Eugenia Boscov foi a primeira mulher a ministrar a Palestra Milton Vargas. Em 2022, Bernadete Ragoni Danziger foi a primeira a proferir a Palestra Pacheco Silva, consolidando a presença feminina nos mais altos fóruns científicos da associação.

Na academia: mestrado, doutorado e livre-docência

Na COPPE/UFRJ, a primeira dissertação de mestrado em Geotecnia defendida por uma mulher foi da engenheira Laura Maria Goretti da Mota, com o trabalho Estudo da Temperatura em Revestimentos Betuminosos. Logo em seguida, em 1979, a engenheira Juçara da Silveira defendeu sua dissertação sobre permeabilidade e estrutura de solo-cal, ambas orientadas pelo professor Jacques de Medina.

A primeira tese de doutorado em Geotecnia defendida por uma mulher na COPPE/UFRJ veio em 1987: Regina Davison Dias apresentou Aplicação de Pedologia e Geotecnia no Projeto de Fundações de Linhas de Transmissão, com orientação de Jacques de Medina. Essa mesma engenheira viria a presidir, entre 1994 e 1996, o Núcleo Rio Grande do Sul da ABMS.

Na primeira turma de Engenharia Civil com especialidade em Mecânica dos Solos e Fundações da UFRJ, iniciada em 1968, formou-se Margarida Lima — a primeira geotécnica com essa formação específica no Rio de Janeiro.

Liderança institucional: presença nos núcleos e comitês

A liderança feminina se fez sentir também na gestão da ABMS. Ao longo das décadas, mulheres assumiram a presidência de núcleos regionais em todo o Brasil — muitas vezes como pioneiras —, além de presidências de comitês nacionais e internacionais de grande prestígio:

- Núcleo Rio de Janeiro: Maria José Candiota Porto (1970–1972); Denise Maria Gerscovich (2005-2006); Anna Laura Nunes (2011-2014); Ana Cristina Sieira (2015-2018)

- Núcleo Minas Gerais: Therezinha de Cássia Brito Galvão (1999–2000); Cássia de Azevedo (2015-2016)

- Núcleo Centro-Oeste: Neusa Maria Bezerra Mota (2011–2014); Fabiani Rosa Barbosa (2023-2024)

- Núcleo Nordeste: Stela Fucale Sukar (2009–2010); Isabella Batista (2011-2012); Karina Dourado (2013-2016); Juliane Marques (2021-2024)

- Núcleo Paraná/Santa Catarina: Andrea Sell Dyminsky (2009–2010); Bianca de Oliveira Lobo (2025-2026); Gracieli Dienstmann (2019-2020)

- Núcleo Rio Grande do Sul: Regina Davison Dias (1994–1996)

- Núcleo Bahia: Luciene de Moraes Eirado Lima (2019–2020)

- Núcleo Espírito Santo: Carla Therezinha B. D. Allendi (2025–2026)

No âmbito dos comitês técnicos, a engenheira Eda Freitas de Quadros foi a primeira mulher a presidir o CBMR (Comitê Brasileiro de Mecânica das Rochas), entre 1988 e 1990, tornando-se também a primeira brasileira a presidir a ISRM (Sociedade Internacional de Mecânica de Rochas) — uma conquista de projeção mundial. As engenheiras Anna Laura Nunes (2007–2010), Vivian Marchesi (2021–2022) e, atualmente, Talita Caroline Miranda seguiram esse legado de liderança no CBMR. Em 2023, a engenheira Daniela Garroux tornou-se a primeira mulher a presidir o CBT (Comitê Brasileiro de Tuneis e Espaços Subterrâneos).

Em ordem: Anna Laura Nunes, Vivian Marchesi, Eda Quadros, Talita Miranda, Daniela Garroux.

Uma história em construção

Os nomes aqui reunidos são mais do que registros históricos: são evidências de que a engenharia geotécnica brasileira sempre foi, também, uma obra de mulheres. Cada uma delas, em seu tempo, abriu portas, criou referências e inspirou as gerações que vieram depois.

Ao celebrar o Dia Internacional da Mulher, a ABMS reafirma seu compromisso com uma comunidade geotécnica cada vez mais diversa, plural e representativa — porque a excelência técnica não tem gênero, mas tem história. E essa história, felizmente, tem muitas autoras, que vão aparecer nas próximas entrevistas e reportagens.

 

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