Resgate histórico: a trajetória da primeira geotécnica brasileira com mestrado em Harvard - ABMS
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Resgate histórico: a trajetória da primeira geotécnica brasileira com mestrado em Harvard

01/04/2026

Carmen Sylvia na formatura pela Escola de Engenharia do Mackenzie, São Paulo, 1949. Carmen Sylvia nas ruas de Boston, durante seus  estudos em Harvard, início dos anos 1950

Uma pioneira no mundo da engenharia 

Carmen Sylvia Ferreira fez história em uma época em que as salas de aula das faculdades  de engenharia do Brasil raramente contavam com presença feminina, numa proporção de  uma mulher para cada cinquenta homens, segundo relato do professor Willy Lacerda, da  COPPE/UFRJ, ex-presidente da ABMS. Nascida em Manaus (AM), em 3 de novembro de  1924, ela não apenas concluiu o curso de Engenharia na Escola de Engenharia da  Universidade Mackenzie, em São Paulo, em 1949, como cruzou o Atlântico em direção aos Estados Unidos para obter seu mestrado em Mecânica dos Solos na Universidade de  Harvard, concluindo-o em 1951/52. 

Filha de Cosme Alves Ferreira Filho e Maria Guiomar de Menezes Ferreira, Carmen Sylvia  foi reconhecida por colegas e pelas gerações seguintes de engenheiras como a primeira  geotécnica brasileira a obter um mestrado na área. O professor Willy Lacerda, referência  nacional em geotecnia, é categórico: "A única que eu conheço bem com o mestrado nessa  época foi a Carmen."

Carmen Sylvia (ao centro, na primeira fila) entre os colegas de turma em Harvard, 1951/52 - a única mulher em  meio a dezenas de engenheiros de várias nacionalidades

O caminho até Harvard 

A trajetória de Carmen Sylvia até Harvard foi aberta por um professor que soube enxergar  além do comum. No Mackenzie, onde ela se formou, o professor Odair Grilo, também ex presidente da ABMS, identificou o potencial da jovem engenheira e a encaminhou para o  programa de pós-graduação em Mecânica dos Solos da Universidade de Harvard - na  época, um dos centros mais avançados do mundo nessa disciplina. 

As fotos de Carmen Sylvia em Boston e na turma de Harvard contam, por si mesmas, uma  história de coragem. Numa imagem da turma de pós-graduação, ela é a única mulher entre  aproximadamente vinte homens, posicionada na primeira fila - e, conta o professor Lacerda  com certa ternura, havia subido um degrau para aparecer na foto ao lado dos colegas muito mais altos que ela. "Ela no meio daqueles marmanjões", recordou ele, rindo, durante  entrevista concedida à ABMS.  

A foto em Boston mostra uma jovem elegante e confiante nas ruas da cidade americana, com  a pose descontraída de quem, mesmo pioneira num território majoritariamente masculino,  sabia exatamente onde queria chegar.

Carmen Sylvia em pesquisa de campo - a engenheira acompanhou de perto as atividades de investigação de  taludes e solos nas estradas brasileiras

Três décadas de pesquisa a serviço do Brasil 

De volta ao Brasil, Carmen Sylvia dedicou sua carreira à pesquisa. Por mais de duas décadas  e meia - de 1964 a 1990 -, trabalhou como pesquisadora do IPR (Instituto de Pesquisas  Rodoviárias), vinculado ao DNER (Departamento Nacional de Estradas de Rodagem). Foi  nessa instituição que sua formação de ponta encontrou aplicação direta em obras e  investigações de enorme relevância para o país. 

Entre as principais contribuições de Carmen Sylvia estão a pesquisa sobre o acidente da  Serra das Araras, em janeiro de 1968; os estudos para o projeto original da Rodovia Rio Santos, em 1970; e a investigação do acidente ocorrido na Serra do Mar - Anchieta, também  em 1970. Ela atuou ainda como orientadora de estagiários em parceria com a COPPE e a UFRJ, realizou pesquisas no Rio Sarapuí (área de aterro), em Duque de Caxias, em 1988, e  exerceu consultoria junto à ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas). 

O professor Willy Lacerda, que a conheceu em 1974, quando a COPPE iniciou uma parceria  de pesquisa com o IPR sobre as propriedades das argilas moles da Baixada Fluminense,  recorda a engenheira como alguém de presença marcante e competência reconhecida: "A  Carmen tinha a responsabilidade de acompanhar todas as pesquisas de geotecnia. Na parte  de argila mole, a Carmen era muito ativa." 

Essa parceria entre a COPPE e o IPR, que perdurou de 1974 a 1982, resultou em teses de  mestrado e doutorado, aprimorou o conhecimento sobre solos da região e estabeleceu bases  metodológicas que influenciam até hoje as pesquisas sobre argilas moles no Brasil - com  desdobramentos que chegam, décadas depois, a estudos sobre solos marinhos profundos  para a Petrobras.

Carmen Sylvia em cerimônia oficial, recebendo condecoração - uma homenagem à sua dedicação e  contribuição à engenharia geotécnica brasileira

Uma vida marcada pela ciência e pelo pioneirismo 

Carmen Sylvia Ferreira faleceu em 28 de agosto de 1995, em consequência de enfisema  pulmonar. O professor Lacerda, que a visitou na UTI nos últimos dias, recorda a despedida  com emoção. Mas é a lembrança da pesquisadora ativa, presente em campo e nos  laboratórios, que permanece viva entre aqueles que trabalharam com ela.

Seu legado vai além dos relatórios técnicos e das pesquisas publicadas. Carmen Sylvia foi,  acima de tudo, uma das primeiras a demonstrar - com sua própria trajetória - que as  mulheres têm lugar central na engenharia geotécnica brasileira. As dezenas de engenheiras  geotécnicas que a sucederam - professoras da COPPE, pesquisadoras, consultoras - são,  em certa medida, herdeiras do caminho que ela ajudou a abrir. 

Os dados sobre sua trajetória foram reunidos pela filha, Grace Alves Ferreira, e  compartilhados com a ABMS como parte do esforço de preservação da memória das  mulheres pioneiras da engenharia nacional.

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